sábado, 17 de março de 2012

TRABALHADORES RURAIS INVADEM TERRAS DA FAZENDA VITÓRIA DO PARAGUAÇU EM CACHOEIRA

No auge da luta pela reforma agrária, foco de tensão política no Brasil no período imediatamente anterior à deposição do Presidente João Goulart e à consequente implantação da Ditadura Militar, em 1964, a Fazenda Vitória do Paraguaçu, em Cachoeira foi invadida há 50 anos, precisamente em 7 de fevereiro de 1962, por trabalhadores rurais que desejavam adquirir, pelo menos, a posse da terra onde trabalhavam e moravam. A Fazenda Vitória, no período imperial foi um dos mais ativos e produtivos engenhos de açucar do Nordeste e tinha pertencido inicialmente a Pedro Rodrigues Bandeira, uma das principais fortunas da época e introdutor da primeira máquina a vapor num engenho de açucar e mais tarde num barco, criando o Vapor de Cachoeira, em 1819. Em 1962, quando ocorre  a invasão dos trabalhadores rurais, as terras do antigo engenho já pertenciam ao Instituto do Açúcar e do Álccol (IAA), órgão do governo federal. Fora incorporada aos bens da União como pagamento de dívidas e empréstimos bancários não honrados.  A notícia da ocupação das terras mereceu destaque na edição do jornal O GLOGO (RJ), que em sua página de história das edições do próprio jornal relatou em 08 de fevereiro de 2012, a situação ocorrida há cinquenta anos.
*OBS: O  jornal grafa errado o nome, chamando o município de Cachoeiro


Na época da invasão, o país vivia um clima de tensão nas zonas rurais, com a ação de grupos conhecidos como Ligas Camponesas, lideradas pelo pernambucano Francisco Julião, em constante conflitos - muitos armados - com os grandes latifundiários, que muitas vezes contratavam pistoleiros e jagunços para acabar com as invasões de terra. No caso do conflito na Fazenda Vitória, por se tratar de terras da União, não houve conflitos com fazendeiros. Mas o fato mereceu destaque considerável num jornal ultraconservador como O  GLOBO, que fazia uma feroz oposição à política centro-esquerdista do governo de João Goulart, sendo um dos  sustentáculos, na mídia, do golpe militar que pôs fim à Democracia no Brasil, dois anos após a invasão.     

sábado, 28 de janeiro de 2012

IMAGENS DE CACHOEIRA (II)

Este blog, que tem o objetivo de resgatar a memória de Cachoeira, apresenta algumas cenas que demonstram a evolução urbana da Cidade Monumento Nacional. Nesta imagem, do início dos anos 30 do Sec. XX, temos o Jardim Grande - já então conhecido pelo nome de de Praça Ubaldino de Assis (1861-1928), que foi prefeito da cidade e deputado federal. Consta que Ubaldino de Assis foi quem doou à cidade, com seus próprios recursos, o coreto instalado nessa mesma praça. A Praça, então ainda pouco arborizada, parece ser mais bem cuidada do que nos dias atuais. A Rua da Ponte Nova, com suas casas pefiladas, já  com os trilhos onde os trens que iam ou vinham para São Félix, faziam manobras para entrar na Ponte D. Pedro II ou na Estação, cujo domo  aparace ao fundo, à esquerda do prédio escolar. À direita, a torre única da Igreja de Nossa Senhora da Conceição do Monte.  


 

sábado, 14 de janeiro de 2012

HÁ CEM ANOS, DISPUTA ENTRE AS OLIGARQUIAS PROVOCOU O BOMBARDEIO DE SALVADOR

Um dos fatos mais importantes da História da Bahia foi o bombardeio de Salvador, ocorrido precisamente há cem anos, no dia 10 de janeiro de 1912. Embora nada tenha sido feito, pelos órgãos públicos e entidades ligadas à preservação da memória, para lembrar essa data histórica, o fato não foi esquecido, graças à reportagem especial que o editor deste blog publicou no jornal A TARDE, cujo centenário coincidentemente também é comemorado este ano. O bombardeio foi o resultado da feroz disputa entre as oligarquias pelo poder político na Bahia. De um lado, Ruy Barbosa. E do outro, José Joaquim (J.J.) Seabra. Eles não mediram esforços e mobilizaram todos os tipos de recursos para conquistar o poder.  Ao final, Seabra foi o vencedor. Mas as marcas na cidade da Bahia e na história foram cruéis: o Palácio do Governo bombardeado, vários prédios atingidos -  seguidos de conflitos de rua que resultaram em mortos e feridos - e um incêndio que destruiu grande parte do acervo da Bibliotca Pública da Bahia,  a mais antiga do Brasil. Livros e documentos raros foram perdidos para sempre!
 Leia abaixo a matéria que publicamos no jornal A TARDE no dia 10 de janeiro, quando o bombardeio a Salvador completou cem anos.

(Para facilitar a leitura, clique nas imagens)


domingo, 8 de janeiro de 2012

IMAGENS DE CACHOEIRA (I)

A imagem abaixo mostra um panorama do centro histórico de Cachoeira.  A fotografia, de meados da década de 10 do século passado, está fazendo aproximadamente 100 anos, o que pode ser constatado pela data do carimbo (1918), época em que o "postal" foi enviado como lembrança da cidade. A destacar: a limpeza das ruas; a ausência de fiação elétrica, embora haja lampiões  a gás para a iluminação pública (a energia elétrica só viria  a ser implantada em Cachoeira dez anos depois), a ausência de poluição visual e,  em último plano, a visão de São Félix ainda com raríssimas ocupações no morro, embora esteja plenamente identificado o chalé construído pelos alemães antes da Primeira Guerra Mundial. Atualmente a paisagem está bastante modificada, principalmente pela ocupação irregular do solo, com a construção desenfredada de casas nas encostas, tanto de Cachoeira quanto de São Félix.     



quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

CUNEGUNDES BARRETO, UM PREFEITO EXEMPLAR.

Na história de Cachoeira um dos períodos de maior atividade administrativa foi durante o governo do intendente (o nome "prefeito" foi adotado, somente a partir de 1930) Cunegundes Barreto. Embora o seu período de governo tenha sido curto (eleito em 1928, teve o mandato interrompido com a Revolução de 1930, que destituiu todos os intendentes do país), ele deixou um notável acervo de obras, com ênfase na urbanização da cidade. No governo dele foram calçadas de paralelepípedo as principais ruas da cidade, construídas  praças, arborizadas ruas e finalizada a construção do cais, na orla da cidade. Apenas com algumas semanas de sua administração os efeitos já eram sentidos, como o "faxinaço" que promoveu, recolhendo o lixo que se espalhava nas ruas. Em pouco tempo, o impacto das ações do rico fazendeiro do distrito de Capoeiruçu guindado ao cargo de intendente, causou um efeito positivo sobre a cidade, como pode ser constatado neste artigo do jornal A ORDEM (14jan1928). A notícia faz referência ao "Cais Maria Alves", que estava em ruínas e seria brevemente recuperado. Trata-se do trecho fronteiro à Rua 25 de Junho, ao lado no local onde viria a ser construído mais tarde o Hotel Colombo.  Ali existia uma praça irregular e abandonada, em cuja sombra de velhos tamarineiros as pessoas se reuniam. Cunegundes  alinhou a praça, deu-lhe o nome do jurista Teixeira de Freitas e construiu a escadaria de pedra, que dava acesso às canoas que faziam a travessia para São Félix.
Jornal cachoeirano A ORDEM (14 de janeiro de 1928) destaca o início da gestão de Cunegundes Barreto
Cunegundes Barreto teve um mandato curto, porém dinâmico

O mandato dele, e de todos os demais intendentes dos municípios brasileiros, foi interrompido bruscamente pela Revolução de 1930, que levou Getúlio Vargas ao poder. Cunegundes Barreto passou o cargo para Cândido Elpídio Vaccareza, nomeado interventor e que tinha sido inclusive antecessor do próprio Cunegundes na administração da cidade. Com a nova ordem política, os políticos "decaídos" - como eram chamados os que tinham perdido o poder - passaram a ser questionados, numa época de "caça às bruxas", onde inquéritos eram abertos em busca de quaisquer irregularidades que justificassem o arbítrio. Assim aconteceu com Cunegundes Barreto, que teve muitas de suas realizações questionadas quanto à lisura dos contratos. Mesmo sem nada ter sido provado contra ele, tal realidade abateu-lhe o ânimo. Desgostoso com a política, dedicou-se às suas fazendas mas tomado por uma grave depressão (ou "desgosto", como essa doença era conhecida à época) adoeceu e morreu menos de um ano após ter sido deposto. O enterro dele mobilizou a cidade e seu túmulo é um dos mais destacados do Cemitério da Piedade, ficando logo à esquerda de quem entra.
O escritor Antonio Loureiro de Souza dedicou-lhe um verbete no livro "Notícia Histórica de Cachoeira" (editado pela UFBa em 1972), onde resume  a história da cidade e traça breves perfis de figuras históricas de Cachoeira. 
Cunegundes é destacado em livro de Antonio Loureiro



terça-feira, 20 de dezembro de 2011

HÁ 130 ANOS COMEÇAVAM AS OBRAS DE CONSTRUÇÃO DA PONTE DOM PEDRO II

Há exatamente 130 anos, no dia 22 de dezembro de 1871 era colocada a pedra inaugural da Imperial Ponte Dom Pedro II, que liga Cachoeira a São Félix. O fato foi registrado no Relatório do então Presidente da Província da Bahia, João Lustosa da Cunha Paranaguá, ao passar o cargo, em 5 de janeiro de 1882,  ao 2º Vice-Presidente da Província, João dos Reis de Souza Dantas perante a Assembléia Provincial (o equivalente hoje à Assembleia Legislativa). A "pedra fundamental" das obras da ponte foi colocada no Largo da Manga, atual Praça Manoel Vitorino.  O presidente destaca a importancia da obra, que irá interligar dois ramais ferroviários e servirá para fomentar o comércio da região e escoar para a capital a produção agrícola do centro da Província. Ligada ao sistema hidroviário, através dos saveiros, canoas e do Vapor de Cachoeira,  as ferrovias que  eram ligadas  através da ponte, se constituiria num pioneiro sistema intermodal de transporte.
 
Relatório do Presidente da Província da Bahia em 1882 ...
em que é citado o início da construção ...
da Imperial Ponte D. Pedro II, que liga Cachoeira a São Félix


sábado, 17 de dezembro de 2011

A QUEIXA DE UM CIDADÃO CACHOEIRANO

Os jornais sempre foram a forma encontrada pelos cidadãos para se manifestarem e pedirem providências às autoridades contra fatos e acontecimentos que lhes tragam constrangimentos. No ano de 1900 o cidadão cachoeirano Feliciano de Cerqueira Couto escreveu uma carta ao jornal A ORDEM, pedindo providências enérgicas à autoridade policial contra uma mulher "crioula" conhecida como "Maria Zoião", que o desacatava com xingamentos. Ameaçando recorrer diretamente ao Chefe da Segurança Pública se providências não fossem tomadas, o reclamante usa uma linguagem rebuscada para relatar que, mesmo sendo um pacato pai de família que vive entregue "ao labor diurno, esforçando-me para cumprir com meus múltiplos deveres",  sofre diariamente desacatos da "mentecapta" que era o terror dos vizinhos, na Rua 13 de Maio.
                                             (clique na imagem para facilitar a leitura)


Esta e outras notícias sobre negros na Bahia estão no site O NEGRO NA IMPRENSA BAIANA NO SÉCULO XX (http://www.negronaimprensa.ceao.ufba.br) mantido pelo Centro de Estudos Afro Orientais da Universidade Federal da Bahia (UFBa), que reúne uma vasta documentação sobre o conteúdo de diversos jornais baianos na abordagem da temática negra.

Este site tem o propósito de constituir um repertório de fontes da primeira década do século XX, no que se refere a notícias de temática racial, seja através de matérias sobre outros países ou, em maior número, à população afro-brasileira, suas manifestações culturais como sambas, batuques, candomblés, capoeira e entidades carnavalescas, a inserção no mercado de trabalho, através de anúncio de emprego com relevância ao aspecto racial, causas de doenças, mortes, linguagem do cotidiano que remetem à característica dessa população, as suas entidades políticas e condições sociais. (Palavras do Professor Jocélio Teles dos Santos,  do Departamento de Antropologia da UFBa)