sábado, 2 de julho de 2011

UM CACHOEIRANO ÀS VOLTAS COM A INQUISIÇÃO.

O Tribunal do Santo Ofício, ou a Inquisição, instituição de origem medieval, criada pelo papado no século XIII para combater os movimentos contestatórios à Igreja, era responsável pela condenação a penas diversas - que poderiam chegar até à morte, por tortura ou na fogueira - de quem agisse ou defendesse práticas consideradas "hereges" ou "anticristãs". Eram também condenados a penas diversas, quem emitisse ou defendesse conceitos filosóficos ou científicos que fossem contrários aos valores e dogmas da Igreja Católica. Ao longo da história, milhares de pessoas foram julgadas, condenadas, presas, desterradas e até mortas por suplício por serem judeus e pela prática de "pecados" como blasfêmias, práticas sexuais consideradas "inadequadas" como o homossexualismo, sodomia, etc.
 
No Brasil Colonial, a Inquisição esteve presente com a chegada à Bahia, no ano de 1591, do  "visitador" Heitor Furtado de Mendonça, enviado especial do Santo Ofício de Lisboa. Durante o período em que aqui esteve,  o pânico se espalhou no Recôncavo, com os depoimentos e confissões de colonos diante da autoridade eclesiástica.  O livro Confissões da Bahia, de Ronaldo Vainfas, é uma versão atualizada e republicada da obra de igual título de autoria de Capistrano de Abreu, publicado no início do século passado.   
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Obra transcreve depoimentos dos colonos
Nele são encontrados centenas de depoimentos de colonos - homens  e mulheres de variada condição social - que no século XVI habitavam o Recôncavo Baiano, onde estava a sede  do Governo Geral do Brasil. Os depoimentos abrangem de tudo: sodomitas, blasfemos, bruxas, mulheres que amavam mulheres, leitores de livros proibidos, sacrílegos, simpatizantes do nascente protestantismo e pecadores em graus diversos. 

Um dos depoimentos, o de número 116, é o de PAULO ADORNO, neto de Paulo de Paulo Dias Adorno e bisneto de Caramuru. Os pais dele eram primos carnais e as avós eram irmãs: Francisco era filho de Afonso Rodrigues e Madalena Álvares Rodrigues; e Catarina era filha de Paulo Dias Adorno e Felipa Álvares Adorno.   Felipa e Madalena Álvares eram irmãs, filhas de Diogo Álvares, o Caramuru, e Catarina Paraguassu. As duas se casaram no mesmo dia e as respectivas famílias deram continuidade à linhagem iniciada por Caramuru e Catarina Paraguassu. Embora morasse no Matoim - o próprio Recôncavo onde ficava esse engenho era considerado "termo de Peroaasu", ou "Paraguassu" - Paulo Adorno era da família fundadora da vila de Cachoeira. No depoimento é citado que "no tempo do governador Luís Brito de Almeida ..." ,referindo-se ao período entre 1573 - 1578, ele acompanhou o "capitão Antônio Dias Adorno", que era seu tio e foi quem iniciou a colonização das margens do Rio Paraguassu, implantando o primeiro engenho na região,  em torno do qual viria a ser implantada em 1698 a Vila de Nossa Senhora do Rosário do Porto da Cachoeira. 

Íntegra do depoimento de Paulo Adorno
A confissão de PAULO ADORNO refere-se a um pecado menor: ter comido carne em "dias  de guarda", ou dias santificados,  quando a Igreja vedava essa prática. Certamente por isso, ele foi apenas advertido, mandado guardar segredo e  foi-lhe determinado a voltar mais tarde à presença do Inqusidor para receber sua penitência.  


A Inquisição punia até com a fogueira quem cometesse "pecados" mais graves

Um comentário:

  1. Raimundo Oliveira7 de julho de 2011 13:08

    Jorginho,sua fonte parece ser inesgotável,fico sempre à espera de boas histórias , informações valiosas e por que não dizer pitorescas para o resgate da história de nossa gente, e minha também.

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